Infância e doença crônica parecem ideias antagônicas, mas não são. Desde os primeiros anos de vida, a criança pode desenvolver quadros de dor que, se não tratados adequadamente, podem gerar sequelas físicas e psicológicas para toda a vida.

Dor é uma das causas mais comuns para o atendimento de meninos e meninas nos serviços de emergência, sendo responsável por entre 52 e 61% dos casos recebidos. As origens mais frequentes para o incômodo são traumas, infecções e inflamações. Entretanto, as crianças também podem sofrer com cefaleias, dores lombares, articulares, miofasciais ou qualquer outra síndrome dolorosa.

Quando não tratadas, as dores contínuas podem gerar modificações no desenvolvimento da criança, dando lugar a problemas duradouros, como distúrbios alimentares e do sono ou déficit de atenção e do aprendizado.

Criança sente menos dor?

Durante muito tempo, o conhecimento científico embasou-se na ideia incorreta de que as crianças eram menos susceptíveis à dor que os adultos. Muitos acreditavam que, no pequeno organismo infantil, a dor não atingiria intensidades tão fortes quanto aquelas observadas nos adultos. Outros receavam que meninos e meninas estariam mais sujeitos a se viciar em medicamentos à base de opioides.

Como resultado, os pequenos pacientes frequentemente recebiam tratamentos com analgésicos mais fracos, insuficientes para garantir o alívio. Os avanços no tratamento da dor obtidos com os adultos não eram aplicados à ala pediátrica e a maior parte das crianças que desenvolvia o problema sofria desnecessariamente.

Esse panorama só começou a mudar nos últimos 30 anos, quando novas descobertas começaram a mostrar que a dor é sentida desde bem cedo, quando ainda estamos no útero de nossas mães. Ao contrário do que se pensava, quando o assunto é dor, o organismo infantil é mais frágil que o do adulto. A razão para tal está no fato de que, embora o sistema nociceptivo seja criado ainda no útero, ele segue em formação após o nascimento, o que faz com que sua responsividade aos estímulos seja maior nos pequenos que nos adultos.

Dor é percepção, não existe uma sensação única do incômodo

Outro avanço importante foi a descoberta de que os estímulos dolorosos são vivenciados de formas muito diferentes por cada criança. É uma equação complexa que irá determinar o efeito final: a dor na criança envolve o que a criança e os pais entendem (como dor), o que eles e a equipe de saúde decidem fazer e como todos se sentem após essa intervenção. Nessa conta, entram vários fatores:

  • O sexo da criança;
  • Sua idade;
  • Seu temperamento;
  • Suas experiências prévias com a dor;
  • Seu nível cognitivo;
  • A família e a comunidade na qual a criança está inserida.
“Meu filho reclama muito de dor de cabeça…”

Muitos pais escutam diariamente dos filhos a queixa de que dói a cabeça. Muitos acabam ignorando a reclamação, pensando que a criança está apenas repetindo algo que escutou por aí – o que não é uma boa ideia.

Caso as queixas estejam se repetindo com frequência, o melhor é investigar o que está havendo com a criança. Dor de cabeça não é só coisa de adulto e especial atenção deve ser dada às meninas em idade menstrual, pois nesse período os relatos de enxaqueca se tornam mais frequentes, em muito por causa da influência dos hormônios.