Dor crônica: Você não é o seu corpo

Quando o corpo está doente, a melhor saída é lembrar-se que nossa existência vai muito além dele, ensina a musicoterapeuta Juliana Bertoncel

corpo dor crônica
Juliana Bertoncel

Outro dia, li em um post no Facebook a declaração de uma mulher portadora de endometriose que dizia não se reconhecer mais no seu próprio corpo. Ele não lhe dava mais prazer sexual, nem era capaz de oferecer o conforto ao qual ela estava acostumada.

Fiquei com isso na cabeça.

Aquele relato parecia com uma história que eu conhecia muito bem: a minha própria. Houve uma fase da minha vida em que eu fui aquela mulher. Eu já pensei com ela. Já criei e nutri raiva, negatividade, insatisfação e autopiedade.

Não porque eu quisesse ou tivesse conscientemente escolhido essa opção, mas porque era a única forma que eu sabia reagir (re-agir = agir em resposta) ao que estava acontecendo.

O corpo e o ser

Quando nosso corpo não funciona da maneira como desejamos, a tendência é que nos sintamos também insuficientes, impotentes como o nosso corpo. Reproduzimos em pensamentos e emoções aquilo que estamos sentindo nos nossos membros ou órgãos.

Mas o problema é que esse é um processo redutor. Afinal, TEMOS um corpo, não SOMOS este corpo. Somos muito mais.

Você pode SENTIR seu corpo, mas não deve sentir-se SOMENTE corpo. Porque a cada vez que o fazemos, que nos infligimos dores emocionais porque nosso corpo não está como gostaríamos, estamos criando uma derrota interna.

Antes de vencer a dor e a doença física é importante vencer a si mesma e ultrapassar essa necessidade de se resumir às dores do corpo e de sofrer junto com ele.

Você pode reconhecer que o corpo está doente e com dor, cansado, pesado e sem energia e, ao mesmo tempo, reconhecer que há um SER dentro de você e, por meio desse SER, conectar-se aos seus sonhos e ao seu poder interno.

O dia em que eu me descobri

A última vez que eu senti dores físicas (também tenho endometriose) foi quando tive um grande desentendimento com uma pessoa muito querida. Acordei no meio da noite sentindo a dor me rasgando por dentro. Não conseguia nem levantar da cama.

Tinha todos os motivos emocionais e físicos para me sentir vítima daquela situação. Estava encurralada, impotente e, não importava o que fizesse, não seria feliz. A dor sempre voltaria. Mas foi imersa neste pensamento que me dei conta de que tudo o que eu estava fazendo era dar um troféu para a dor. Estava dizendo a ela “Ok! Você venceu”! E, óbvio, estava sentindo uma raiva imensa de tudo: da dor, da situação e de mim mesma.

Ao perceber isso, decidi que era hora de mudar. Tinha de tirar essa falência interna de dentro de mim. Levantei, fiz um chá, muitos exercícios respiratórios e escolhi nutrir dentro de mim só felicidade, amor e satisfação.

Tirei de dentro a força e a coragem que precisava para começar o dia. O meu corpo seguia doente, mas minha mente agora não estava mais acompanhando-o. Antes era o meu corpo quem comandava, ele tinha o poder de decidir a minha agenda e o meu bem-estar. Isso, porém, era passado. De agora em diante, tinha decidido não dar mais todo esse poder para ele.

Não abandonei-o! Muito pelo contrário, ele recebeu tudo o que precisava. Fiz respiração, meditação, cantei, tomei o remédio, alonguei e tomei um banho quente. Mas deixei claro que ele não ia me derrotar. Não mais.

Ele entendeu. Aos poucos a dor foi diminuindo, diminuindo, até desaparecer. Quando o dia acabou, não sentia mais nenhuma dor, nem física, nem emocional.

O meu desejo de SER EU foi imensamente maior do que o meu desejo de ser DOR.

O que toda pessoa com dor deveria saber
Dessa experiência, aprendi uma série de coisas que gostaria de compartilhar porque sei que podem ser úteis para todas as pessoas que vivem com dor crônica.

Em primeiro lugar, você não é a dor. Você não é seu corpo. Você não é a doença e você não é uma mulher insuficiente que não consegue mais sentir prazer no sexo. Você não estará a salvo se cada vez que sentir dor, se repreender e se enfraquecer.

O caminho não é este.

A saída é conectar-se novamente com quem você realmente é. Criar um espaço interno, onde você possa se amar e amar seu corpo mesmo com ele momentaneamente não conseguindo atender às suas expectativas. Por isso, lembre-se:

Não há liberdade maior do que a se libertar emocionalmente das dores.
Você escolhe ser feliz, tendo ou não tendo dores.
Você escolhe se amar, tendo ou não tendo dores.
Você escolhe se sentir saudável, tendo ou não tendo as dores.

*

Juliana Bertoncel (terapiaemusica@gmail.com) é consultora de saúde e promotora de bem-estar, ministra o único treinamento que ensina como usar a música para diminuir a dor.

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