Por que é importante aceitar a dor crônica

Pode parecer estranho em um primeiro momento, mas aceitar a dor crônica é um passo fundamental para evitar o sofrimento. Saiba por que nesta entrevista com o psicólogo Jamir Sardá.

aceitar a dor

Não é fácil receber o diagnóstico de uma doença para a qual a ciência ainda não desenvolveu um método para a cura e isso não é diferente entre quem descobre que tem dor crônica. É desafiante a ideia de que há um elemento novo na vida que precisa ser sistematicamente controlado – seja com medicamentos, com fisioterapia, com exercícios físicos ou com cirurgias.

Todas essas mudanças, somadas à dor continua e por tempo prolongado, fazem com que muitas pessoas percam as esperanças quando se descobrem pacientes de dor crônica. A primeira reação, não raro, é a de negar a doença. O segredo para ganhar qualidade de vida, porém, está justamente no processo contrário: aceitar a enfermidade e aprender a conviver com ela. Nessa conversa, o psicólogo especialista em dor e doenças crônicas Jamir Sardá, um dos colaboradores do livro Ufa! Chega de Dor, explica porque a dor vai muito além dos aspectos físicos e porque aceitá-la é uma atitude importante no tratamento para controlar o incômodo.

Por que cuidar da parte psicológica é fundamental para a melhoria do paciente de dor crônica?
Cerca de uma a cada cinco pessoas tem algum tipo de doença que resulta em dor crônica, o que representa 20% da população mundial. Dentre esses, cerca de 10% apresenta incapacidade física importante, e um a cada três pacientes com dor apresenta depressão. De maneira geral, podemos estimar que de cada 10 pacientes que apresentem dor, dois possuem aspectos psicológicos importantes de serem tratados.

Como a psicoterapia pode ajudar o paciente a controlar a intensidade do incômodo?
ciclo da dorA dor em geral cria um ciclo de incapacidade e sofrimento psíquico que pode contribuir para a manutenção da dor (Apresentado na figura ao lado). Os principais aspectos a serem tratados são a depressão, a ansiedade, o estresse e crenças disfuncionais, como a catastrofização. A psicoterapia pode ajudar a pessoa com dor a reduzir a depressão e a ansiedade, e a desenvolver estratégias mais adequadas para lidar com a dor, tornando o paciente mais ativo e revertendo essas crenças disfuncionais.

O que é a catastrofização e por que ela atrapalha o paciente?
Os pensamentos catastróficos são crenças disfuncionais de que diante de uma determinada situação ocorrerá o pior desfecho. Na dor, eles aumentam a hiper vigilância da pessoa ao sofrimento e também provocam mais tensão muscular, fatores que contribuem para a manutenção do incômodo. Porém, os pensamentos catastróficos são esquemas ou jeitos de pensar, e, por isso, podem ser alterados.

Fala-se muito sobre aceitar a dor. Em que consiste esse processo?
Aceitar a dor consiste principalmente em não evitar se envolver em atividades que podem causá-la. Ou seja: continuar levando a vida mesmo com dor. Se você parar de fazer suas atividades para tentar evitar o incômodo, muitas vezes se encontrará no seguinte cenário: a dor não irá parar por causa disso, mas você acabará se isolando das outras pessoas e deixando de fazer coisas que gosta. Isso só irá piorar a situação de quem já tem um quadro crônico.

Qual a diferença entre aceitar a doença crônica e ser passivo em relação à enfermidade?
Passividade é apenas se acomodar ou se resignar a viver com dor. O importante é que a pessoa seja ativa no tratamento, melhore sua condição física, estabeleça objetivos na vida e, mesmo com as dificuldades inerentes a viver com dor, siga em frente.

Aceitar a dor

Faz alguns dias me deparei com uma frase interessante, de um médico, que dizia: “Tenha paciência. Diagnóstico requer tempo”. É importante que o paciente esteja preparado para essa espera? Como é possível manter a calma em momentos de dor?
Embora exista um grande número de procedimentos que pode reduzir a dor, muitas vezes, alguns profissionais propõem curas milagrosas, que não são possíveis. Um diagnóstico pode demandar tempo: existe uma hierarquia para a realização de procedimentos, que vai do mais simples para o mais complexo. Costumo dizer aos pacientes, que, do mesmo modo como ele levou anos para ter um quadro de dor, às vezes é importante estabelecer um prazo de alguns meses para reverter ou minimizar esse quadro.

Algumas dicas para os pacientes de dor crônica:

Há alguns exercícios para a mente que podem ser feitos diariamente?
Sim. Os principais são exercícios de relaxamento e de meditação. Essas atividades possuem benefícios reconhecidos cientificamente, reduzindo a ansiedade, a depressão e a intensidade da dor.

Onde buscar forças?
Em clínicas de dor e em associação de pessoas com dor. Existem sites de grupos de pacientes que se organizam para lidar com o problema ou mesmo discuti-lo. Por exemplo, há um grupo de pacientes com endometriose em SP, existe um associação de pacientes com artrite reumatóide (APAVI) e um outro grupo de pacientes com fibromialgia. Nesses espaços, o paciente geralmente vai encontrar informações, atividades de lazer, serviços de psicólogos, cursos e outras coisas. São um importante recurso a ser usado pelos pacientes, inclusive por serem uma forma de socialização.

Em quais pontos prestar atenção?
Mude o foco da sua vida, não focalize na dor. Se engaje em atividades que possam lhe dar prazer. Estabeleça um prazo para melhorar sua condição de saúde.

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